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Rota da Memória
por Nica Ferreira
Na longa rota da memória, alguns caminhos se perdem antes mesmo de alcançar o destino sonhado. A vontade de “vencer” diante das adversidades econômicas é o que leva tantos a se debruçarem sobre os livros durante longas e cansativas horas. O estudo, para quem sonha e quase nada possui, é como uma porta entreaberta para um novo mundo. Mas poucos lembram que, até alcançar essa porta, é preciso caminhar com cautela, ouvindo o próprio corpo, respeitando o próprio limite.
Moisés, assim era como todos o chamavam, caminhava todos os dias em direção a essa porta. Um menino magro, olhar persistente e gestos miúdos. Perdeu-se, porém, na própria racionalidade enquanto tentava chegar à tão sonhada porta do sucesso.
No percurso ,encontrou obstáculos que poucos percebiam: a falta de uma alimentação digna, noites mal dormidas e o trabalho exaustivo que o esperava depois da escola. Era apenas um menino entre tantos, carregando o sonho de oferecer dignidade à família e a si mesmo.
Mas ninguém lhe pediu para descansar.
Ninguém ofereceu sombra.
Ninguém perguntou se ele ainda tinha forças.
Moisés seguiu sozinho, viajante obstinado rumo ao futuro que imaginava. Entretanto, a mente, tão pressionada quanto o corpo, não suportou o trajeto. A rota precisou ser reajustada à força. Já não viajava para a porta do sucesso: agora buscava a porta íntima da própria memória.
Delirou.
E se perdeu.
Vagava pela neblina dos próprios pensamentos, tentando recolher fragmentos do que um dia foi. Nunca o vi acompanhado de familiares; sempre estava ali, no entorno da escola, caminhando devagar, como quem procura pistas do passado. Amava ser ouvido, e eu amava ouvir suas narrativas simples e profundas.
Moisés era aplaudido pelo esforço e dedicação, mas ignorado em suas palavras.
Aplaudido pelo corpo cansado.
Esquecido na alma.
E então compreendi que há rotas que exigem demais de quem tem tão pouco.
E há memórias, como a de Moisés, que nunca deveriam ter sido o único refúgio possível.
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