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Instantes de Lucidez /
O último instante de lucidez
por Patrícia Roberta Xavier
Nê era uma jovem de olhos de jabuticaba madura, desses que escondem doçura e perspicácia. Tinha cabelos negros como uma noite sem estrelas. Sorria pouco, mas quando sorria, parecia que a pureza do mundo podia ser contemplada. Casou-se cedo, talvez cedo demais para quem ainda não sabia que a vida é cheia de revezes.
Depois do nascimento do segundo filho, algo nela se deslocou. Primeiro, um silêncio espesso. Depois, a sensação de que o tempo estava em descompasso.
E então a realidade fragmentou-se diante de seus olhos. Nê viu a vida se revirar por dentro. As memórias se embaralharam como peças de um
quebra-cabeça, algumas desaparecidas, outras viradas ao avesso. Tentava montá-lo, mas as bordas não se encontravam mais. O que lembrava escorregava do lugar, pregava-lhe peças, desfazia-se. Os dias perderam qualquer linearidade possível. E ela, tomada por um emaranhado de emoções, passou a caminhar sem saber para onde, nem o que fazia naquele
território desalinhado.
O marido era homem obtuso e confundiu fragilidade com defeito. Passou a olhar para ela como quem observa algo fora do prumo, uma peça que já não encaixava no modelo de família que pensara para si. Pegou-a pelo braço e devolveu aos pais, como quem devolve algo adquirido com avaria. Disse que ela estava quebrada.
E, assim, Nê ficou sem filhos, sem marido, sem lar e, sobretudo, sem si.
Durante anos, navegou aérea dentro do próprio descompasso. Criava apelidos engraçados e sinestésicos. Alguns eram nomes de partes do corpo, outros vinham de princesas de contos de fadas, outros ainda nasciam de adjetivos compostos envolvendo a palavra quente, como se o calor pudesse nomear afetos. Era sua maneira de reorganizar o mundo, de dar sentido a um enredo que lhe escorria por entre os dedos.
Nenhum médico deu nome ao que nela se partira. Nenhum tratamento alcançou a fresta exata por onde sua lucidez escorrera.
Sua mente tornou-se um redemoinho. Dores, mágoas, angústias, desejos e emoções dispersas giravam presas na desordem que ela mesma comunicava ao peito.
Não demorou para que o corpo revelasse aquilo que a mente já não sabia pronunciar.
No silêncio do peito, células desordenadas começaram a se multiplicar com fúria discreta. Quando descobriram, era tarde.
Foi, então, à beira da despedida, que algo quase milagroso aconteceu. Os estilhaços da mente pareceram se alinhar, como se desejassem oferecer-lhe um último gesto de inteireza.
Chamou pelos filhos. Pelo marido. Pediu para vê-los.
Eles foram ao seu encontro.
Nê os reconheceu com a nitidez de quem reencontra fotos antigas e, de repente, descobre-se de volta a si mesma. Naquele instante, alinhou lembranças como quem organiza uma mala repleta de recordações e afetos guardados por anos. Ajustou sua bagagem íntima e, então, descansou.
Partiu levando consigo o poder de ser ela mesma.
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