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A Pasta de Sofia
por
Elisabeth Sekulic

Sofia sempre acreditou que a loucura fosse um território distante, quase exótico — algo que acontecia aos outros, nos livros, nos filmes, nos corredores errados da vida. Até o dia em que passou no concurso.

Era jovem, preparada, idealista. Acreditava, ainda, na força das instituições, na lógica dos sistemas, na ideia quase ingênua de que cumprir a lei era suficiente para proteger quem a cumpria. Tornar-se parte de uma autoridade do serviço público, investida de responsabilidade e estabilidade, parecia o ápice de uma trajetória construída com esforço e esperança. Finalmente, pensava, estaria do lado certo da mesa.

No início, tudo funcionava como deveria funcionar. Ou, ao menos, como parecia funcionar. Com o tempo, porém, pequenas fissuras começaram a aparecer. Processos estranhos, decisões silenciosas, procedimentos que não se sustentavam quando examinados com cuidado. Nada gritante. Nada que pudesse ser apontado com o dedo sem que alguém sorrisse e dissesse: “Você está exagerando.” Sofia não exagerava. Ela observava.

Quando percebeu que o problema não estava fora, mas dentro, algo mudou. A fiscalização deixou de mirar o público externo e passou a exigir vigilância sobre os próprios pares. E, sem que percebesse exatamente quando, o ambiente tornou-se opaco. Conversas cessavam quando ela entrava na sala. Portas se fechavam com delicadeza excessiva. Gentilezas começaram a soar como advertências.

Procurou uma superior. Uma mulher que parecia compreensiva, quase amiga. Falou baixo, escolheu bem as palavras, acreditando ainda na via institucional. Mas cada relato ampliava o problema, como se as paredes escutassem. Cada instância a que recorria revelava não uma solução, mas um labirinto maior.

Foi então que surgiu o médico. Um psiquiatra atento, solícito, interessado demais. Ouviu Sofia com paciência, fez perguntas precisas, anotações cuidadosas. Disse compreender. Disse que ela não tinha mais condições de permanecer ali. Disse que podia ajudá-la.

No começo, foram afastamentos breves. Licenças justificadas. Um descanso necessário. Mas logo ele explicou que, para que o afastamento fosse legítimo, seria preciso “pesar a mão”. Estresse não bastava. O sistema exigia algo mais grave. Um nome mais pesado. Um diagnóstico que encerrasse qualquer discussão.

Sofia hesitou. Mas já não dormia. Já não conseguia trabalhar. Já não conseguia provar nada. Aceitou.

A partir daí, a realidade começou a falhar.

Ela não conseguia acessar sua própria máquina. Certificados digitais surgiam e desapareciam. Descobriu, por acaso, que havia mais de um ativo em seu nome — inclusive em períodos em que estava oficialmente ausente. Os registros indicavam acessos, usos, operações. Mas não diziam o que estava sendo feito em seu nome.

Solicitou apuração. Disseram que era impossível.

E-mails desapareciam. Senhas mudavam sozinhas. Redes sociais se tornaram território hostil. Recuperava acessos como quem tenta entrar numa casa que insiste em trocar as fechaduras. Tudo deixava rastro, mas nada deixava prova.

Sofia percebeu que não precisava de ameaças físicas para sentir medo. Quando a intimidade se dissolve, quando a identidade é usada sem consentimento, quando cada passo parece antecipado, o corpo entende antes da mente.

Procurou ajuda. Polícia especializada. Ministério Público. Protocolos. Senhas. Filas. Em algum ponto, seu processo foi colocado em sigilo. Arquivado. Sem explicação clara. Apenas um comentário atravessado: “Há informações sobre sua condição mental.”

E então veio o silêncio.

Sofia passou a existir apenas como pasta. Como laudo. Como hipótese. Cada tentativa de defesa reforçava a narrativa de que ela precisava ser protegida — de si mesma. A dúvida deixou de ser externa e passou a morar dentro dela. E esse foi, talvez, o golpe mais eficiente.

Porque quando ninguém acredita em você, e você começa a duvidar de si, a loucura deixa de ser um diagnóstico e vira um método.

No fim, aposentaram Sofia por invalidez. Um desfecho limpo. Administrativo. Sem culpados.
Sem ruídos.

Hoje, às vezes, ela ainda se pergunta se tudo não foi uma alucinação sofisticada. Se não confundiu sistemas com conspiração, falhas com perseguição, coincidências com armadilhas. Pergunta-se se enlouqueceu — ou se enlouquecer foi a única saída possível dentro de um sistema que não admitia falhas.

A loucura, ela aprendeu, nem sempre grita.

Às vezes, ela se parece demais com a razão.

E é isso que a torna tão perigosa.

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