top of page
O Louco Mais Velho
por Sandra Apenas
Lá em casa, a loucura nunca precisou de diagnóstico. Ela chegava no fim da
tarde, junto com o pó da estrada, o cheiro de terra nas roupas e o silêncio pesado de quem trabalhou o dia inteiro sem direito a reclamar.
Meu pai era lavrador. Pobre, cansado, provedor. Pai de dois — eu e meu irmão caçula — e marido de uma mulher que sabia, como ninguém, equilibrar a casa e os ânimos. O corpo dele envelhecia mais rápido que o calendário, e a paciência, coitada, era a primeira a se aposentar.
Num desses dias comuns — que de comuns só tinham o nome — a casa estava barulhenta demais, quente demais, viva demais. Criança fala alto, panela ferve, problema lateja. Foi então que meu pai, vencido não pela loucura, mas pela rotina, soltou o grito que atravessou a sala:
— Todos nesta casa são loucos!!!
Houve um segundo de silêncio. Aquele silêncio fino, esticado, que antecede a
tempestade… ou a gargalhada.
Minha mãe, mulher sábia, daquelas que edificam o lar com palavras simples e certeiras, levantou os olhos com calma, respirou fundo e respondeu, sem alterar o tom:
— E você é o louco mais velho!
A tensão caiu no chão como prato quebrado. Meu pai riu. Nós rimos. A casa riu. A loucura, ali, perdeu o peso e virou piada, memória, afeto.
Hoje, muitos anos depois, perguntei aos dois o motivo daquela cena. Nenhum soube dizer ao certo por que falou o que falou. Meu pai deu de ombros. Minha mãe sorriu. Talvez porque algumas coisas não tenham explicação mesmo. A gente apenas explode, responde, sobrevive… e segue.
Hoje entendo: aquela frase não falava de insanidade, mas de humanidade. De gente cansada que ama, de quem segue em frente mesmo quando tudo parece demais. Se éramos loucos, éramos juntos. E se havia um louco mais velho, era o que carregava a casa nas costas — e ainda achava espaço para rir.
Essa é a minha história de loucura.
Daquelas que não se internam.
Daquelas que se lembram.
bottom of page