top of page
Memórias de Quem Viu Demais e Inventou o Resto
por Lorena Rebello
(texto entre o real e o imaginado)
Quando penso na palavra “loucura”, não penso em mim.
Penso em “Tia Albinha”, que quebrava a casa da minha avó como quem varre um chão
emocional que ninguém sabia limpar.
Penso no dia em que ela trancou outra tia dentro de casa e a história só terminou quando
alguém entrou pelo basculante do banheiro, como um herói improvável de um filme
tragicômico familiar.
Eu era criança.
Não era protagonista de nada.
Só testemunha.
A loucura não me escolheu diretamente, ela apenas se derramava pela casa e eu ficava no
canto, acordada, tomando nota mental do caos como quem estuda um idioma estranho que
precisa aprender para sobreviver.
Minha família inteira parecia falar fluentemente esse idioma.
Eu inventava outro.
Foi assim que nasceu o meu “Fantástico Mundo de Bobby”. Um lugar onde a realidade
perdia força e a imaginação ganhava musculatura.
Enquanto adultos gritavam, eu criava histórias.
Enquanto coisas quebravam, eu criava mundos.
Enquanto eu chorava sozinha escondida, criava humor para contar na escola, fazendo os
outros rirem das coisas que eu não podia chorar.
Aprendi cedo que a fantasia é um colete salva-vidas que só funciona para quem acredita
nela.
Há cenas que eu não gosto de revisitar.
Elas existem, mas não precisam ser contadas.
Eu escrevi uma peça sobre isso e engavetei.
Às vezes esquecer é uma forma de saúde.
Não quero ser “Funes el memorioso”.
Quero lembrar só o suficiente para não repetir, e esquecer o suficiente para continuar.
E nesse cenário caótico e inventado, teve uma personagem que não era invenção:
minha amiga desde os três anos de idade, que está comigo até hoje.
Ela foi meu portal para o mundo real, o de agora!
Quando percebeu que eu estava me perdendo demais dentro de mim, disse uma frase que
me atravessou como facada e abraço ao mesmo tempo:
“Quem disse que a vida é boa, mentiu.”
Doeu ouvir.
Doía mais saber que meu sofrimento fazia ela sofrer.
Ali alguma coisa em mim acordou. Mais forte do que o medo da loucura alheia e mais forte
do que a vontade de desaparecer nas minhas histórias.
Algumas semanas depois, quando o eco das palavras dela encontrou um lugar dentro de
mim, lembrei que ela me chamou de potente.
Nenhum adulto da minha infância me disse algo assim.
Talvez por isso tenha funcionado.
Talvez por isso eu tenha acreditado.
Foi então que eu parei de imaginar mundos e comecei a criar um: um espaço de troca, de
arte, de audiovisual, onde outras pessoas também pudessem transformar aquilo que pesa
em algo que respira.
Hoje, quando olho para a menina que eu fui, espectadora silenciosa da loucura dos outros,
inventora compulsiva de narrativas, criança que chorava sozinha e ria para os outros, eu só
quero abraçá-la.
Proteger.
Dizer que ela não precisava normalizar nada daquilo.
E que, apesar de tudo, ela conseguiu. Ou está tentando.
Porque talvez “loucura” seja isso:
o que a gente herda sem pedir,
o que a gente inventa para continuar,
e o que a gente transforma quando finalmente descobre que é potente.
04 de Dezembro de 2025
Serra/ES
bottom of page