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A Missa do Galo
por Saulo Silva
Hoje, compartilho com os leitores deste espaço, mais uma história que ouvi,
ainda, na infância, a respeito de algo que ocorreu há muito tempo em um
bairro, naqueles tempos, distante da capital da cidade do Rio de Janeiro.
Para quem é (ou foi) morador antigo de Campo Grande, na Zona Oeste
carioca, talvez tenha conhecido uma figura, nômade, chamado popularmente de "Sunguinha", que perambulava pelas imediações da estrada das Capoeiras, estrada do Rio do A, aventurando-se, quase sempre também, pela antiga estrada Rio-São Paulo entre outras.
O apelido, talvez, tenha surgido pelo fato desse andarilho estar sempre sem
camisa, ou sem qualquer outra peça de vestimenta, que não fosse apenas uma sunga! Sujo, encardido pelo tempo, sem memória ou desespero aparente, era acolhido nas noites em postos de gasolina, marquises ou qualquer outro lugar que oferecesse um abrigo provisório para sua indiferença anônima.
No entanto, é a partir desse ponto que a minha própria história se cruza com a de "Sunguinha" e, isso vocês entenderão, mais adiante.
Durante a minha infância, nas férias escolares, eu viajava para o antigo estado da Guanabara, minha terra natal, visitar minha querida avó paterna Florisia Rosa da Silva com a família. Inclusive essa não é a primeira vez que faço referência a essa figura querida, pois, guardo na lembrança momentos muito especiais naquela casa acolhedora.
Sempre que chegava à casa de Dona Florisia, em meio à alegria e a expectativa de dias de aventuras, encontrava meu primo João Francisco, filho de tia Lídia, uma das muitas irmãs de meu pai (se não me engano eram 10). Não raramente, João contava histórias e, claro, no seu repertório, havia aquelas narrativas de dar medo e deixar os cabelos em pé!
Certa vez, nos confidenciou que ao voltar de uma Missa do Galo, evento
religioso de tradição católica, na Paróquia de Sant’na, em Campo Grande,
passou por uma situação assombrosa.
Contou, João, que caminhava pela estrada das Capoeiras, que à época era
margeada por muita mata, marcada por sítios e fazendas, herança dos tempos da colonização portuguesa, quando se deparou com algo estranho que brilhava sobre a vegetação. Era como se fosse um enorme lençol branco, brilhante, que flutuava, vindo em sua direção.).
João começou a correr em desabalada carreira em direção à casa de Vó
Florisia e chegou quase sem cor com o coração a saltar-lhe pela boca.
Enrolado no cobertor e com a cabeça coberta, eu mal respirava, imaginando
aquela cena de horror e mistério. Em outra cama, o Primo tecia suas
considerações, dizendo que era alma do outro mundo.
O ambiente do quarto onde dormíamos, de certa forma, contribuia para a
construção de um cenário quase lúgubre composto de moveis antigos, um
ventilador dos anos 1940, que girava lentamente sobre uma cômoda
desbotada. Ao lado, um abajur em formato de vela, com uma lâmpada
avermelhada, que dava o arremate ideal para narrativas como aquela. Essa
história ficou em minha memória, e a guardo com certo realismo até os dias de hoje! Tempos depois, já na fase adulta, após o falecimento de minha Avó
Florisia, soube que João estava com problemas psíquicos. Havia incendiado a
casa de Vovó, destruído documentos, móveis e passou a viver perambulando
pelas ruas do entorno, somente de sunga, porém sem fazer mal a ninguém.
Havia enlouquecido!
Pelo que contam, moradores antigos ainda se lembram de João, o Sunguinha, andando quase sem roupa pelas ruas do bairro, procurando talvez pela aparição que avistou voltando da Missa do Galo, realizada na Paróquia de Sant’Ana, em Campo Grande, em uma madrugada de natal, de um ano que não me recordo. Por isso, todas as vezes que me deparo com um andarilho, pelas ruas escuras da cidade, sem destino, ou à procura de respostas que só ele sabe, fico me perguntando qual seria a sua história, o que estaria por detrás daquela pessoa e qual seria a sua real identidade.
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